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É bom morar no azul

Anna Bella Geiger & Marília Garcia Publicado em: 25 de julho de 2019

Lunar IV, serigrafia de Anna Bella Geiger, 1973. Cortesia da artista.

1.

O mapa não é o território,
diz um dos princípios de Alfred Korzibsky para indicar que a linguagem
e as representações não equivalem ao referente.
A palavra cadeira não é a cadeira em si (e nem a imagem da cadeira, para lembrar o trabalho de Joseph Kosuth que contém uma cadeira, a definição de cadeira no dicionário e uma foto da mesma cadeira).

No caso da lua, talvez fosse justo dizer que o “território é o mapa”, já que o mapa veio antes de o homem chegar lá, já que as inúmeras representações ajudaram a inventar (e seguir alterando) este “território”.

Pensando no trabalho de Kosuth, será que as obras artísticas poderiam ser o mapa, o território e as representações? Talvez um modo de costurar essas muitas superfícies?
Em 1647, Johannes Hevelius, pai da cartografia lunar, desenhou o primeiro atlas lunar, chamado Selenografia, feito a partir de observações num telescópio.
Em seguida, foi criada a nomenclatura dos topônimos da lua em latim, usada até hoje, em que há nomes como: “Mar da tranquilidade” ou “Oceano das Tormentas”.
Na época, acreditavam que havia água na lua, mas por que será que depois mantiveram esses nomes?
A terra, por outro lado, virou uma “bolinha de gude azul”, numa das fotos mais conhecidas, justamente por conta dos oceanos.

entre uma e outra,
astronautas se deslocam
no mapa, uma linha entre os dois planetas
em julho de 1969, colocaram os pés em cima da superfície da lua
alunissando sobre o Mar da Tranquilidade.

 

Lunar V, fotoserigrafia de Anna Bella Geiger, 1973. Cortesia da artista.

 

2.

As estrelas estão diferentes hoje,
diz a canção de David Bowie “Space Oddity”, lançada 5 dias antes do lançamento da Apollo 11, que levaria Armstrong e Aldrin a pisar na lua.

Referência ao filme 2001 (“a space odissey”), a canção é toda em forma de diálogo entre um solitário astronauta, o Major Tom, e a equipe do “controle de solo”, que monitora sua nave. Aos poucos, as falas do astronauta vão ficando estranhas e ele se mostra impactado pela experiência de flutuar no espaço, longe da terra, com saudades da esposa (nesses momentos, a melodia também se desvia). Já para o final da música, o “controle de solo” diz que o sistema deu pane e tenta se comunicar, mas ninguém responde. (Can you hear me, Major Tom? X 3)

“Space Oddity” está em sintonia com a atmosfera da época, orbitando ao redor da corrida espacial, mas ela consegue individualizar o astronauta (que costuma ser como coletivo e impessoal: diz-se “o homem na lua”, “um passo para a humanidade”). Além disso, a canção contrasta com o tratamento heroico dado aos astronautas da Apollo 11, já que nela há espaço para uma dimensão humana.

Curiosamente, apesar do fim trágico da música de Bowie, ela foi usada na abertura da transmissão feita pela BBC da chegada à lua.

em 1968, uma nave vai à lua fazer fotos que serviriam para definir
onde a Apollo 11 pousaria
as câmeras são colocadas do lado de fora da nave
e elas possuem pálpebras que se fecham para proteger as lentes
da poeira cósmica

ao abrir os olhos, podemos ver as coisas:
as estrelas estão diferentes hoje. a terra está diferente.
como se faz para enxergar no meio da poeira?

segundo a física, a realidade não costuma ser o que parece
a terra parece plana, mas é redonda
o sol parece girar ao redor da terra, mas é o contrário
o tempo não é linear,
mas uma complexa coleção de estruturas e camadas

dar um passo no tempo. pra trás, pra frente
e pros lados. como escapar das polaridades?

 

Lunar I, fotogravura em metal e serigrafia de Anna Bella Geiger, 1973. Cortesia da artista.

3.

“A lua é um gesso cinzento”

Chegar à lua é se despir da gramática familiar e se abrir para o desconhecido.
A lua deixava de ser esfera prateada que ilumina os amantes
para se transformar em paisagem inóspita, salpicada de crateras,
“um gesso cinzento”, como teria dito Armstrong, buscando uma semântica reconhecível tirada do treinamento ao qual os astronautas tinham sido submetidos (numa paisagem de gesso).

O espetáculo produzido para o pouso também procurou domesticar este inominável, com uma série de significantes que produzem “visões” do que aconteceu, uma costura de muitas superfícies justapostas: as imagens borradas da transmissão da descida à lua, as primeiras palavras entrecortadas de Armstrong, o nome do módulo lunar (águia) ou do local de pouso (mar da tranquilidade), as fotos coloridas em altíssima resolução.

“ao vivo direto da superfície da lua”
600 milhões de telespectadores, maior audiência da época
2001, de Stanley Kubrick, é de 1968.
o monolito de Kubrick sobre a superfície da lua.

Os dois astronautas que desceram à superfície lunar ficaram ali por pouco mais de 2 minutos. Poucos minutos que se expandem pra frente e pra trás no tempo. Eles fincaram uma bandeira americana numa espécie de marco zero, deram alguns passos que até hoje estão marcados no solo, recolheram material lunar para trazer de volta à terra. E tiraram uma centena de fotos.

 

Oceanus Procelarum, fotogravura em metal e clichê de Anna Bella Geiger, 1973. Cortesia da artista.

4.

A lua nossa de cada dia 

“Polaridades”, de Anna Bella Geiger, é um trabalho dos anos 70 feito a partir de fotos da superfície da lua cedidas pela Nasa. A artista conta que eles tinham selecionado as melhores fotos, mas ela queria “todas”, as fora de foco, as distantes, as que não pareciam boas.

O gesto da Nasa de selecionar as imagens que seriam as “certas” e deixar outras de lado será incorporado pela artista no trabalho também como um modo de destacar as polaridades do momento.

“oceanus procellarum” (oceano das tormentas)
é o maior dos mares lunares.

podemos usar uma lupa pra ver. parece uma ilha
podemos abrir os olhos e marcar um ponto no mapa.

O trabalho é feito de várias camadas e superfícies, com mapas e imagens costuradas, com coordenadas e toponímia, com elementos que insinuam leituras.
O trabalho é feito de enquadramentos e sobreposições. O mapa é foto é superfície é território.

Alguns elementos vão se deslocando de uma imagem para outra, criando uma espécie de rima que novas leituras para as mesmas imagens. O cinzento da lua tem vários tons e texturas, as crateras se deslocam, as margens e linhas são entrecortadas. Imagens que aparecem em outros trabalhos, pra frente e pra trás.

“aqui é o centro”, alguém diz
no centro, o mar.
uma ilha, um ponto que vira linha que vira borda.

um X que não diz mas insinua coisas
um ponto fixo, visor, centro, foco:
um ponto de chegada
e de partida

Ver o mapa do Brasil hoje é como ver com olhos de cinquenta anos atrás.
Os reflexos às vezes são polaridades. São estanques.
A lua nossa de cada dia.

 

Mare Tranquilitatis, fotogravura em metal de Anna Bella Geiger, 1973. Cortesia da artista.

5.

É bom morar no azul

Os americanos planejavam outros desafios depois da chegada à lua (como uma ida a Marte até 1984), mas as viagens espaciais ficaram pelo caminho.
Chegar à lua marcava o fim da corrida espacial e das disputas neste campo. Houve também a recessão econômica nos anos 1970 que certamente fez parte da descontinuidade dos planos exploratórios.

estava na hora de voltar os olhos para a terra.
a terra é azul.
chegar no outro para ver a si.
(até bowie deixa a lua de lado,
vai pensar na vida em marte)

Em 1963, Vinicius de Moraes gravou um disco com uma música chamada “Astronauta”. É uma canção de amor que se apropria do vocabulário espacial da época: “Quando eu me pergunto se você existe mesmo, amor  / entro logo em órbita no espaço de mim mesmo, amor.” E faz referência à fala de Yuri Gagarin ao chegar no espaço: “O astronauta ao menos viu que a Terra é toda azul, amor / isso é bom saber porque é bom morar no azul, amor”.

É curioso pensar que o objeto de “Astronauta” é a Terra, além, é claro, do “eu” que está no centro, é o habitante “deste azul”. Ao chegar no espaço, o homem olha para si e para as suas questões. É hora de ver o azul, o mar, de pacificar.

Em 1972, João Gilberto gravou uma canção chamada “Astronauta”, composta por Pingarilho e Marcos Vasconcellos. Trata-se de uma música de 1966 chamada “Samba da pergunta”, mas que só na gravação de JG foi batizada “Astronauta”. É também uma canção de amor, mas ao contrário da de Vinicius, aqui o espaço aponta para fora, é escapatória, infinito, indefinido:

“Ela agora mora só no pensamento
ou então no firmamento, em tudo o que no céu viaja
pode ser um astronauta ou ainda um balãozinho
(…)
pode estar morando em Marte
Desapareceu.”

Se o primeiro “Astronauta” do cancioneiro dos anos 60 se volta para a Terra, este segundo se projeta para o espaço, está flutuando no ar, fora de alcance.

 

Trevas, fotogravura em metal e serigrafia de Anna Bella Geiger, 1974. Cortesia da artista.

6.

Desapareceu

Das fotos lunares feitas na expedição da Apollo 11, a mais conhecida é uma espécie de autorretrato feito pelo primeiro homem, Armstrong, com uma câmera Hasselblad 70.

Nela, Buzz Aldrin está em pé no irregular solo lunar vestindo seu largo macacão branco de astronauta e capacete, um dos braços erguido na altura do peito, como se desse um tchau. Na lateral direita da foto um pedaço do pé do módulo lunar. No capacete, o que vemos não é o rosto de Aldrin, mas, ao longe, o próprio Armstrong refletido no vidro abaulado, espécie de espectro branco iluminado contra o fundo negro do céu, ao lado da sombra de Aldrin e do módulo lunar pousado.

O horizonte atrás de Aldrin é uma linha interrompida pelo capacete que se encaixa em outra linha do horizonte, também refletida, que está atrás de Armstrong. Todos os jogos espelhados desta imagem trazem uma espessura para o acontecimento. Além desta, há uma centena de outras fotografias (de altíssima qualidade) tiradas in situ, nas 2 horas passadas em solo e nas 16 horas flutuando sobre a lua.

carlo guinzburg diz
que o que aproxima mitos e obras de arte é, por um lado,
o fato de terem nascido e serem transmitidos
em contextos culturais específicos;
por outro, sua dimensão formal.

 

Aqui é o centro, fotogravura de Anna Bella Geiger, 1973. Cortesia da artista.

7.

Primeiros passos

Levantar o pé direito projetando o corpo pra frente —
os braços abertos tentando se equilibrar
— então tocar no chão e levantar o pé de trás.

Os movimentos são lentos, calculados e um pouco desordenados.
Um pequeno passo é um grande passo.

Com os braços erguidos, encontrar apoio no ar
as pernas avançando aos poucos enquanto se descobre a gravidade.

Minha filha tem 1 ano. Está aprendendo a andar.
Parece um astronauta caminhando na superfície lunar, tendo que reaprender
os movimentos, a olhar com olhos livres

para enxergar no meio da poeira
para descobrir as coisas mais simples:
pra onde ir, como dar os primeiros passos, o que fazer
como morar no azul.///

 

 

“Em 1970 o meu trabalho orientou-se para uma investigação sobre o significado, a natureza e a função da obra de arte. Fundamental para o desenvolvimento de minha própria obra e para a atividade didática que eu exercia no Museu de Arte Moderna (MAM-RJ).

Concomitantemente ocorria o período de exceção política no Brasil, de restrições às liberdades individuais. Neste mesmo momento, o homem chega à Lua, em julho de 1969. No ano seguinte eu consegui fotos originais da superfície lunar cedidas pela NASA. Então, iniciei uma pesquisa inédita usando meios ainda pouco conhecidos na época dentro da gravura em metal, como o photoetching (fotogravura).

A chegada ao território lunar significou um sentido de liberdade e da capacidade do homem de vencer obstáculos anteriormente intransponíveis. Eu podia, a partir dessas imagens gravadas das crateras lunares, inscrever conceitos, por exemplo, de polaridades como ‘certo x errado’, cujo caráter político e metafórico apontava para o desejo de liberdade de expressão. O meu propósito era o de poder discutir livremente ‘naquele outro solo’ as questões políticas sem o receio da censura. Foi a minha “conquista”. (Anna Bella Geiger – junho de 2019)

 

 

Anna Bella Geiger (1933), carioca, lecionou no MAM-RJ e na Universidade Columbia, Nova York. É coautora de Abstracionismo geométrico e informal: a vanguarda brasileira nos anos cinquenta (1987), com Fernando Cocchiarale.

Marília Garcia (1979) nasceu no Rio de Janeiro. É tradutora e publicou, entre outros, os livros Engano geográfico (7letras, 2012) e Câmera lenta (Companhia das letras, 2017), pelo qual ganhou o Prêmio Oceanos de Literatura. Atualmente mora em São Paulo.

 

 

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