Exposições

Ambiciosa exposição em Barcelona apresenta o universo em torno do fenômeno dos fotolivros

Walter Costa

Em 1977, duas sondas espaciais Voyager partiam da Terra levando um disco de ouro especialmente criado pelo cientista Carl Sagan, na possibilidade de alguma civilização extraterrestre encontrá-las no futuro. Como resumir nosso planeta e nossa civilização em um “cartão de visita” gravado em apenas 12 polegadas de circunferência?

Mais terreno e menos grandioso, porém similar, é o desafio da exposição Fenômeno fotolivro, em cartaz no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB) e na nova sede da Fundação Foto Coletânea, ambos em Barcelona. Um bom fotolivro acontece a partir de uma colaboração bem-sucedida entre autor, editor, designer e produtor gráfico. Da mesma forma, o curador-chefe Moritz Neumüller optou por uma curadoria conjunta, convidando pesos pesados com atuações fundamentais para a expansão desse universo até o tamanho atual. O resultado é uma mostra ambiciosa, densa, dividida em sete “capítulos” e destinada a ser um marco na história da produção de fotolivros.

Uma das características físicas mais importantes de um livro é a sua portabilidade, a possibilidade de ser lido na cama, em um gramado, numa praça ou varanda. Logo de partida, este já é um bom desafio: como levar um objeto de leitura íntima à dimensão pública de uma exibição? Sabemos que em toda tradução perde-se algo do original, mas é aí que um bom tradutor faz a diferença. Assumindo que imprimir fac-símiles gigantes não seria uma opção e que não é possível deixar de proteger do manuseio livros frágeis e raros, me interessou ver as respostas dos curadores da Fenômeno fotolivro a esse desafio.

Se hoje consideramos normal chamar de fenômeno o movimento em torno do fotolivro, a ponto de dedicar-lhe uma grande exposição com mais de 500 títulos, precisamos dar um passo atrás para melhor entender o cenário. Apesar de existir na linha do tempo da fotografia desde seus primórdios, por décadas o fotolivro foi relegado a um canto escuro do salão na história da fotografia, mais preocupada com discussões e embates para afirmar-se no mundo da arte. Como prestar atenção ao que era considerado um subproduto barato, muitas vezes um simples catálogo?

A visão do colecionador, curadoria de Martin Parr

 

Sendo assim, o primeiro objetivo da exposição é a consagração de uma história da fotografia que reconheça o papel dos fotolivros na evolução da linguagem fotográfica. Basicamente, o que o fotógrafo e editor inglês Martin Parr vem fazendo desde 2004 junto ao também fotógrafo e curador Gerry Badger, parceiro na edição da trilogia O fotolivro: uma história. O capítulo “A visão do colecionador”, curado por Martin Parr, define a espinha dorsal da exposição com 57 livros fundamentais escolhidos dentre os 13 mil de sua coleção. Para ressaltar o valor de cada livro, e transmitir o sequenciamento das páginas que sustentam a narrativa, optou-se pelo uso de vitrines dispostas ao longo de um corredor, ao lado dos originais protegidos, tablets para “folhear”, projeções e, quando possível, exemplares de consulta. Não é como ler com as costas no travesseiro, mas, dentro do possível, foi uma boa solução para dar conta de apresentar a seleção de livros.

Um dos primeiros a apostar na inclusão de fotolivros em museus, o curador Horacio Fernández, ao contrário de Parr, não pretendia criar uma linha do tempo histórico-estética. O nome de seu capítulo na exposição, A biblioteca é o museu reafirma a posição de Fernández. No espaço expositivo, a escolha foi diagramar mosaicos na parede onde os olhos do visitante são convidados a relacionar as obras de Gabriel Cualladó, Manuel Álvarez Bravo e Henri Cartier-Bresson com os livros de suas respectivas bibliotecas. Uma aposta original, que cria mapas conceituais próximos dos trabalhos e das referências de cada artista. Essa opção vem do fato de que, para Fernández, apesar de ficar fora do circuito da arte, os fotolivros sempre circularam, influenciaram e inspiraram gerações de fotógrafos.

 

A biblioteca é o museu, curadoria de Horacio Fernández

Gerry Badger escolheu uma abordagem mais provocativa ao eleger livros que originalmente não tinham propósito artístico, mas que com o tempo foram descobertos por seu valor fotográfico e narrativo. Em “Livros de propaganda vs Livros de protesto”, ele se concentra em criar oposições entre os dois temas. Para isso, além de vitrines, usa reproduções superdimensionadas das páginas, somando a força da colagem ao tamanho da pintura muralista e tomando conta de todo o espaço. Os esforços político-visuais de convencer as pessoas a abraçar uma causa – seja por meio da celebração, no caso da propaganda, ou da denúncia, no caso do protesto –, são misturados entre si, reforçando a ideia de Badger de “dois lados da mesma moeda”.

O holandês Erik Kessels é conhecido por ser um artista da apropriação, colecionador compulsivo e grande admirador da fotografia vernacular, anônima, acidental, de cliques sem nenhuma intenção artística. Dividida em duas partes, sua curadoria “Fascinações e fracassos” nasce da “tensão constante entre dedicação, péssimo resultado e genialidade, o que torna interessante estes livros”. Na primeira parte, “Fotolivros incrivelmente geniais”, percebemos ecos do seu livro Fotolivros terrivelmente geniais. Um caso típico de furor acumulativo, o visitante é engolido por uma sala forrada até o teto de reproduções de páginas caoticamente arranjadas. No meio, uma vitrine apresenta as cópias físicas desse gabinete de curiosidades, que vai de um manual de break-dance até um sobre o fair play no futebol. A segunda parte, intitulada “Que desastre!”, se inspira no livro homônimo em que Kesssels celebra o erro como motor criativo. A sala, transformada num depósito de restos, abriga fotografias apropriadas originalmente usadas como provas para ilustrar informes de danos. As imagens estão expostas junto a portas velhas, tábuas e cadeiras, criando uma instalação divertida, mas um pouco fora de contexto diante de tamanha densidade de obras e conteúdos.

 

Fascinações e fracassos, curadoria de Erik Kessels

A cultura imagética japonesa, que remonta à natureza visual do ideograma, já seria justificativa suficiente para a existência do único capítulo “geográfico” da exposição. Mas, como escreve o curador e colecionador de fotolivros Ryuichi Kaneko, a exceção nipônica é ainda mais rica: “No Japão, apenas a reprodução da imagem [em livros e revistas] era considerada merecedora de consideração. Essa diferença se tornou uma característica da fotografia japonesa, que a conduziu à idade de ouro dos fotolivros”. Com a colaboração do editor e especialista em fotografia japonesa Ivan Vartanian (com quem Kaneko publicou o fundamental Fotolivros japoneses dos anos 1960 e 70), o capítulo “Cinco aspectos do fotolivro japonês”, destaca a relação entre fotógrafo e designer na criação de fotolivros. Um dos exemplos escolhidos foi o livro Barakei (1963), do fotógrafo Eikoh Hosoe (1933), editado quatro vezes entre 1963 e 2015. Apesar de apresentar o mesmo conteúdo fotográfico, cada versão do livro parece uma obra completamente distinta. Trabalhando em cada edição com um designer diferente, Hosoe deixou que eles expressassem livremente seu estilo, mas sempre respeitando o equilíbrio entre imagens e objeto. Infelizmente essas maravilhas só podem ser vistas através de vitrines, quando poderiam ter ido para a parede ou mesmo para tablets.

O fato de o CCCB, um centro não especializado em fotografia, hospedar a maior parte da exposição realça dois aspectos. Por um lado, demonstra que o fotolivro está finalmente se estabelecendo na cultura visual contemporânea. E, por outro, carrega a responsabilidade de abrir o entendimento do fotolivro a um público mais amplo, com o desafio de gerar encanto e interesse para o formato junto a pessoas alheias a este nicho. Nesse contexto, o capítulo “Lendo Nova York” merece destaque. Criado em torno de um único livro, o clássico de William Klein (1928) A vida é boa & boa pra você em Nova York (Life Is Good & Good For You In New York, no original, de 1956). Com curadoria de Markus Schaden, editor e diretor do PhotoBookMuseum, esse trabalho é o mais recente de uma série intitulada PhotoBookStudies: mapas rizomáticos que expandem fotolivros no espaço expositivo, em que as paredes viram uma grande lousa com comentários manuscritos acompanhando a sequência de páginas. Uma maneira chamativa, divertida e inovadora que enriquece a leitura e sugere interpretações, servindo também como guia para o (não sempre fácil) ato de ler fotolivros.

 

Lendo Nova York, curadoria de Markus Schaden

Finalmente, o capítulo “Práticas contemporâneas” ressalta outra parte fundamental para entender melhor os fotolivros: o processo criativo que se esconde por trás do resultado final. A curadoria ficou por conta da dupla Moritz Neumüller (professor e curador-chefe da exposição) e Irene de Mendoza (diretora artística da fundação Foto Coletânea), com sete artistas que se destacam na experimentação de processos e formatos, e cujos trabalhos são mostrados por meio de bonecos dos livros e vídeos. Entre tanta diversidade de aproximações, cabe ressaltar uma característica comum entre os artistas: suas carreiras decolaram graças à produção de fotolivros, veículos cada vez mais efetivos para afirmar a voz de autor no panorama fotográfico. Completa essa parte da exposição a “Estação beta”, uma grande sala de leitura com mais de duzentos livros publicados nos dois últimos anos e selecionados por especialistas do mundo todo. Entre mesas e pufes, a boa surpresa foi encontrar Cabanagem (2105), de André Penteado, único representante do Brasil (além de Amazônia (1978), de Claudia Andujar e George Love, selecionado na curadoria de Martin Parr).

Práticas contemporâneas, curadoria de Moritz Neumüller e Irene de Mendoza

Um destaque final é o catálogo, desenhado pelo italiano Ramon Pez, que transforma os capítulos expositivos em fascículos com imagens e textos mais extensos dos curadores, além de um inédito ”posfácio”, em que Lesley Martin (editora do Photobook Review, da Aperture), nos apresenta seu “Convite para uma taxonomia do fotolivro contemporâneo”.

Voltando aos discos das Voyager do início do texto, a mostra Fenômeno fotolivro também lida com a dúvida e a esperança de que seu conteúdo ultrapasse fronteiras. Possivelmente, o tamanho e abrangência da exposição sobrecarregue quem não pertence à categoria que Neumüller chamou de “congregação do fotolivro”. No entanto, a polifonia das vozes curatoriais oferece ao visitante a liberdade de pular para o seu “capítulo” favorito, o que pode ajudá-lo a se localizar neste universo. Como Sagan já imaginava, é difícil dizer se a mensagem enviada em disco chegará aos “extraterrestres”. No caso da exposição, o mesmo vale para as pessoas fora do mundo das publicações artísticas. Meu desejo, parafraseando o cientista, é que ela consiga passar para o grande público que “um [foto] livro é a prova de que os homens são capazes de fazer magia”.///

 

Walter Costa é fotógrafo e editor independente italiano com base em São Paulo. Pesquisador na área da edição, criou o projeto The Rising Card, é um dos fundadores do grupo de discussão sobre fotolivros Trama e coordenador do grupo de estudos Lombada-Laboratório de Fotolivros.

Exposições

Na abertura, Museu da Fotografia Fortaleza mostra a diversidade de sua coleção com quatro exposições

Iana Soares

Fachada do Museu da Fotografia Fortaleza, por Celso Oliveira

O mesmo conselho dado por Marco Polo ao imperador Kublai Khan diante da vastidão de seu império em As cidades invisíveis, de Italo Calvino, pode ser oferecido ao visitante que entra pela primeira vez no Museu da Fotografia Fortaleza: de uma fotografia, assim como de uma cidade, não aproveitamos apenas “as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. Ou as perguntas que nos colocamos para nos obrigar a responder, como Tebas na boca da Esfinge”. Ao ver imagens de Henri Cartier-Bresson, Steve McCurry, Man Ray, Rosângela Rennó, Pierre Verger, Claudia Andujar, Sebastião Salgado e outros tantos mestres da fotografia mundial, é necessário ser um viajante atento e curioso para apreender a diversidade que temos diante dos olhos.

Inaugurado no início de março, o Museu da Fotografia Fortaleza apresenta ao público mais de 400 obras nacionais e internacionais que fazem parte da coleção Paula e Silvio Frota. Quatro exposições, divididas nos três andares do prédio de 2.500m2 projetado pelo arquiteto Marcus Novais, apresentam a imersão do curador Ivo Mesquita, ex-diretor artístico da Pinacoteca de SP, no acervo que ultrapassa as 2.000 imagens.

O fato de o empresário Silvio Frota ter iniciado sua coleção de obras fotográficas a partir de critérios de gosto pessoal talvez explique a variedade da seleção: fotografias históricas, de reportagens, retratos, paisagens, publicidade e outras já consagradas no campo da arte contemporânea compõem o arquivo. Os eixos escolhidos por Ivo Mesquita, nas quatro exposições, são pouco explícitos e reforçam essa profusão, sem aprisioná-la em um discurso curatorial limitador. Algumas imagens exibidas no MFF remetem àquelas que ainda não foram apresentadas ao público, pois integram séries maiores ou são recortes na produção de determinado fotógrafo. Nesse jogo, o espectador pode imaginar outros roteiros possíveis dentro da coleção, organizados tanto por temas, como por marcos temporais ou mesmo por autor.

Congresso nacional II, de Marcel Gautherot

Abrindo mão de uma narrativa cronológica, a exposição temporária Imaginário de Cidades, no térreo do museu, traz um mosaico sobre questões urbanas no mundo. Luis Gispert, em Cemitério (2011), coloca o espectador dentro de um carro, bem ao lado do alegre pintor da Torre Eiffel, de Marc Riboud. As escolhas iniciais da curadoria já apontam que, mais do que ter como fio condutor o artifício do tempo e um viés evolucionista, pautado pelas transformações tecnológicas do meio fotográfico ou mesmo da paisagem, a busca foi por criar conexões, diálogos e também distanciamentos entre as imagens.

O Rio de Janeiro, por exemplo, surge tanto na fotografia de Marc Ferrez, ainda no século XIX e sob encomenda de Dom Pedro II, como no painel iluminado de Betina Samaia, em uma imagem da série Noturnos (2013). As fotos de José Medeiros e Bina Fonyat conversam sobre a praia de Copacabana. A graciosidade e o instante decisivo do transeunte que salta Atrás da estação São Lázaro (1932), em uma das fotografias mais famosas de Henri Cartier-Bresson, flertam com as Meninas no bairro da Liberdade (1940), de Hildegard Rosenthal, que se lambuzam com seus picolés. O voyeurismo da série Numa janela do Prestes Maia 911 (2008), de Julio Bittencourt, marca um olhar mais contemporâneo de fotorreportagem na coleção. É preciso tempo e até mais de uma ida ao MFF, para investigar as especificidades de cada imagem e também as conexões entre elas. Seria interessante que fosse oferecido um catálogo, ainda que virtual, para esse percurso continuar mesmo após a visita.

Águas termais, de Otto Stupakoff.

Victor Dragonetti, nascido em 1991, é o fotógrafo mais jovem presente no museu e aparece com imagens das manifestações ocorridas em São Paulo, em 2013, com as quais ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo. Feitas 40 anos antes, e reunidas agora na mesma exposição, as imagens do veterano Evandro Teixeira narram a ditadura no Brasil e criam pontes históricas entre as manifestações populares.

Baldes (2009), de Patrick Hamilton, é a única obra que rompe com o rigor da parede ao expor algumas fotografias noturnas dentro de baldes iluminados. Ainda que destoe do conjunto geral da curadoria, a presença dessas imagens indica o interesse do colecionador em reunir trabalhos que também saiam da moldura na parede, trazendo outras questões para o espaço expositivo.

Menina afegã, de Steve McCurry.

Ainda no térreo, no final de um corredor, a Menina afegã (1984), de Steve McCurry, faz a transição para a exposição Sobre Crianças. Mesmo reproduzida à exaustão em revistas, livros e internet, a fotografia que ressalta os olhos da menina Sharbat Gula sempre causa impacto.  Esta imagem, vista há nove anos em uma exposição de McCurry em Houston, mudou o rumo da coleção de Paula e Silvio Frota, até então focada em pintura.

Nesta exposição, a menor das quatro que inauguram o museu, é possível encontrar obras de Claudio Edinger, Thomaz Farkas, Adriana Duque, entre outros. Gabriel Chaim, presente também em Imaginário de cidades, mostra retratos de crianças de Aleppo, atingidas pelos conflitos na Síria. Sobre crianças também será ponto de partida das ações educativas com crianças em situação de vulnerabilidade social, expandindo o alcance do museu. Serão realizadas oficinas de fotografia em bairros e escolas e o resultado será exposto no mesmo espaço.

Jovens de Aleppo, de Gabriel Chaim.

Em Jogos de olhares, no primeiro andar, fica ainda mais explícito que não existe um princípio curatorial primordial e unificador nas exposições. Ao reunir a multiplicidade de gosto dos colecionadores, afirma-se mais uma vez que foi priorizada a exibição da diversidade do acervo. Em princípio, esta mostra tem caráter permanente, com possíveis variações a partir da própria coleção.

A mãe migrante (1936), de Dorothea Lange, está reunida com obras de Man Ray e Cindy Sherman. Uma das imagens mais significativas da segunda guerra mundial, feita em 1945 por Joe Rosenthal, ganhador do prêmio Pulitzer, mostra soldados norte-americanos fincando a bandeira dos Estados Unidos em Iwo Jima. A presença de O soldado caído (1936), de Robert Capa, também impressiona quem já conhece a história da fotografia.  Em outra parede, Che Guevara, Frida Kahlo, Igor Stravinsky e Richard Avedon parecem conversar sobre o tempo. É nesta exposição que aparecem autores mais relacionados à fotografia contemporânea e o hibridismo de técnicas. Além de Ação 3 (2005), série do cearense Yuri Firmeza marcada pela performance, há também duas fotografias de Adriana Varejão com o mesmo viés. Esses encontros apontam a possibilidade do Museu da Fotografia Fortaleza tornar-se um espaço de formação e valorização desta linguagem, nacional e internacionalmente.

sem título, de Man Ray.

No segundo andar, a exposição O norte e o nordeste traz autores nascidos ou que direcionaram o olhar para essas regiões. O litoral e o sertão são protagonistas em fotos de Marcel Gautherot, Tiago Santana, Pierre Verger e Gentil Barreira. A série com crianças Tapebas, de José Albano, enfatiza certa tradição fotojornalística na região. Os retratos de Mário Cravo Neto, com um olhar pessoal sobre o candomblé, também são destaque. A força e o mistério de Miguel Rio Branco podem ser percebidos no políptico O grito, porta da escuridão (1996), presença significativa na mostra.

Zo’é, de Rogério Assis.

Deus da cabeça, de Mario Cravo Neto.

Ainda neste pavimento, Chico Albuquerque (1917-2000) ganha uma sala especial no ano em que o seu centenário de nascimento é comemorado. Em É tudo verdade – Chico Albuquerque e Orson Welles, o espectador pode ver o encontro entre o cearense e o cineasta norte-americano, durante a gravação do filme É tudo verdade, em 1942. Neste espaço, há também um vídeo com entrevistas gravadas com o fotógrafo. A sua trajetória na publicidade, que o consagra nacionalmente, ficou de fora.

Mucuripe, de Chico Albuquerque.

Nesta primeira série de exposições fica claro que a coleção é pautada essencialmente pelo gosto do colecionador. Ainda que diversificado, é perceptível um forte interesse por imagens já consagradas na história da fotografia. Abrir o acesso a este acervo privado é um gesto relevante. Para a inauguração, a escolha da curadoria de apostar na diversidade, sem ter um discurso conceitual mais estabelecido e privilegiando a presença de imagens icônicas, permite atingir um público amplo, formado não apenas por fotógrafos e artistas. Mas para firmar-se como um espaço de referência nacional e internacional, será preciso ir adiante e experimentar mergulhos mais profundos tanto na coleção, como em percursos que ultrapassem as fronteiras do acervo, através de curadorias ousadas que estabeleçam formulações mais contundentes. Além de reverenciar os mestres, o MFF pode se destacar ao descobrir e exibir artistas que experimentem mais com a linguagem fotográfica. Transformar-se em um pólo não só de difusão, mas também de formação, pode ser uma estratégia para consolidar o espaço.///

 

Iana Soares é fotógrafa e jornalista. Mestre em Criação Artística Contemporânea pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Barcelona, é editora de fotografia do Jornal O POVO, em Fortaleza.

Exposições

Uma seleção de exposições no Brasil para quem gosta de fotografia

Veja uma seleção de exposições no Brasil (e, aqui, no exterior) para quem gosta de fotografia:

São Paulo

 

 

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Zipper Galeria, até 14 de janeiro de 2017

A exposição explora a capacidade da fotografia, comumente associada à perenidade, de comunicar duração e movimento ao reunir obras e artistas que questionam imobilidade da imagem, seja através da escolha de tema, suporte ou modo de operar. Obras de André Penteado, Felipe Russo, Ana Vitória Mussi, Katia Maciel, Graciela Sacco, Patricia Gouvêa, entre outros, nas quais aspectos como deslocamentos, suportes cinéticos e efêmeros, longas exposições e relações temporais entre elementos pictóricos se entremeiam. Mais informações aqui. [imagem: Patricia Gouvêa]


 

German Lorca: Arte ofício/artifício

Sesc Bom Retiro, até 26 de fevereiro de 2017

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A exposição é dividida em três núcleos: no primeiro estão reunidas experimentações do artista com a técnica fotográfica, incluindo solarizações, múltiplas exposições e jogos de inversão negativo-positivo. Outro nicho expositivo mostra sua aproximação com o meio publicitário a partir da década de 1940, quando produziu diversas campanhas de marcas brasileiras. Por fim, o visitante tem uma rara oportunidade de conferir algumas obras em cores do fotógrafo, que se afirmou como um dos expoentes da fotografia moderna brasileira com sua obra predominantemente monocromática. Mais informações aqui.


 

III Mostra do Programa de Exposições 2016

Centro Cultural São Paulo, até 12 de março de 2017

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Entre os artistas e coletivos que integram a mostra está o Nervo Óptico, grupo que atuou entre 1977-78 publicando um cartazete mensal, nos moldes da arte postal. Livros, revistas, fotografias, fotomontagens e registros de instalações compõem um resgate do trabalho do coletivo, que usava a imagem fotográfica como forma principal de expressão. Mais informações aqui.


 

Fotografia publicitária brasileira

Casa da Imagem, até 2 de abril de 2017

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A mostra reúne mais de setenta profissionais da área e imagens criadas a partir da década de 1950 até a atualidade. A evolução do discurso publicitário no país é representada através de produtos e marcas que pontuaram os hábitos de consumo brasileiros e suas respectivas campanhas. O grande destaque fica para os pioneiros Otto Stupakoff, Hans Gunter Flieg, German Lorca e outros mestres que afirmaram a pertinência desta linguagem. Mais informações aqui. [imagem: German Lorca]


 

Rio de Janeiro

 

Espírito de tudo
Rosângela Rennó

Oi Futuro Flamengo, até 29 de janeiro de 2017

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Ocupando todo o espaço do Oi Futuro Flamengo, a mostra reúne seis obras da artista multimídia que trabalham com a imagem em diferentes esferas. Em Turista transcedental, por exemplo, Rennó manipula vídeos de viagens a diversos pontos do planeta, distanciando-se da paisagem em si e concentrando a experiência na relação com culturas estrangeiras. Segundo a artista, as obras que compõem o Espírito de tudo mostram que há muitos outros mistérios entre o céu e a terra, além daqueles que os filósofos, poetas e artistas já detectaram. Mais informações aqui.


 

Modernidades fotográficas, 1940-1964

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro, até 26 de fevereiro de 2017

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Modernidades fotográficas, 1940-1964 é a nova exposição de longa duração em cartaz na Galeria Marc Ferrez no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. É possível explorar mais de 160 imagens de quatro grandes fotógrafos brasileiros num período crucial para a formação da fotografia moderna no país. Com curadoria de Ludger Derenthal, coordenador da coleção de fotografia da Kunstbibliothek em Berlim, e Samuel Titan Jr., coordenador executivo cultural do IMS, a mostra apresenta do fotojornalismo de José Medeiros (1921-1990) ao modernismo de Marcel Gautherot (1910-1996), da abstração de Thomaz Farkas (1924-2011) à fotografia industrial de Hans Gunter Flieg (1923) – com um país em rápida e contraditória transformação como pano de fundo. Mais informações aqui. [imagem: Thomaz Farkas]


 

Otto Stupakoff: Beleza e inquietude

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro, até 30 de abril de 2017

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A retrospectiva do pioneiro da fotografia de moda no Brasil, cujo acervo de 16 mil imagens está sob a guarda do IMS desde 2008, foi dividida em quatro núcleos que contemplam toda a sua trajetória profissional: os anos de formação e início da carreira nos anos 1950; sua colaboração com importantes revistas como a Vogue francesa, a americana Harper’s Bazaar e retratos de celebridades como Jack Nicholson; sua série de nus; e uma sala dedicada às inúmeras viagens que fez, incluindo destinos como o Ártico. Mais informações aqui.


 

 

Belo Horizonte

 

Estado da natureza
Pedro Motta

CâmeraSete, até 25 de fevereiro de 2017

O fotógrafo, que utiliza extensivamente da manipulação digital em seu trabalho, expõe mais de 70 imagens distribuídas em oito séries, nas quais explora a tênue linha entre elementos naturais e o comportamento humano. Entre as obras expostas estão Flora negra, instalação fruto de uma residência na Colômbia, e a série Naufrágio calado, na qual Motta insere carcaças de barcos em paisagens marcadas por erosões de grande dimensões. A erosão é também o tema em Falência #2, obra criada especialmente para o espaço da exposição. Mais informações aqui.


 

Curitiba

 

Êxodos
Sebastião Salgado

Caixa Cultural Curitiba, até 12 de fevereiro de 2017

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O fotógrafo lança seu olhar sobre movimentos migratórios induzidos por conflitos políticos e étnicos no mundo desde 1993, analisando como a história e geografia são alteradas por eles. A mostra traz o resultado desta pesquisa, para a qual Salgado percorreu quarenta países retratando a realidade de pessoas obrigadas a deixar sua terra natal por motivos sociais e econômicos. Mais informações aqui.


 

Recife

 

PaLarva
Paulo Bruskcy

Caixa Cultural Recife, até 12 de fevereiro de 2017

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Com cerca de 300 obras, esta retrospectiva inédita da poesia visual de Bruscky inclui trabalhos realizados desde a década de 1960, assim como alguns produzidos exclusivamente para a mostra. Mais informações aqui.


 

Salvador

 

World Press Photo

Caixa Cultural Salvador, até 29 de janeiro de 2017

Migrants crossing the border from Serbia into Hungary.

A exposição reúne as 164 imagens vencedoras da 59ª edição do prêmio de fotojornalismo, que expõe seus resultados na Bahia pela primeira vez. Entre as fotografias premiadas estão duas de Maurício Lima, fotojornalista brasileiro vencedor do prêmio Pulitzer deste ano, e outra do espanhol Sebastián Liste, que fotografou a rotina do Papo Reto, coletivo de mídia independente que atua no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Mais informações aqui. [imagem: Warren Richardson]