“Jogo da Memória”, de Aline Motta

 

Formada em comunicação social e em cinema, a carioca Aline Motta trabalhou como continuísta em sets de filmagem por mais de 15 anos. Assim, não conseguia se aprofundar em um trabalho mais consistente nas artes visuais. Afirma que passou décadas tentando dar forma ao que tinha para dizer. Com bolsas e editais, vem realizando um trabalho de fôlego nos últimos anos. Em 2015, depois de ter participado do programa AfroTranscendence, organizado pela curadora Diane Lima, cristalizou algumas ideias acerca da vontade que tinha de abordar certas questões familiares. Guiada pela fala da intelectual norte-americana Audre Lorde, criou coragem e foi: “Meus silêncios não me protegeram. O seu silêncio não irá te proteger”. Rompeu o silêncio e a partir de um mergulho na memória pessoal e familiar, construiu um retrato da memória coletiva da brutal formação das famílias brasileiras, incluindo aí o processo de escravização.

No projeto enviado para a Bolsa de Fotografia ZUM/IMS, Aline propõe realizar um livro de duas partes: a primeira, um experimento usando técnicas literárias para contar algumas histórias inspiradas em sua família; e a segunda um ensaio fotográfico a partir dos temas tratados nestas narrativas.

O que você descobriu de mais marcante ao longo da pesquisa para o desenvolvimento do projeto?

Aline Motta: Eu descobri que ninguém ficou mais branco no Brasil por amor. Descobri que o processo de embranquecimento de toda uma população no Brasil foi política pública e atingiu nossas famílias no momento pós-abolição de forma perversa e sistemática.

O que a história da sua família e de sua tataravó diz sobre nós brasileiros de forma geral? E sobre o papel da mulher mais especificamente?

AM: Que somos um país violentamente racista e que as poucas medidas reparatórias que foram implantadas, apesar de óbvias, são duramente contestadas, porque a maior parte da população é alijada das decisões históricas e políticas, das quais na verdade deveriam ser protagonistas. E que não há um aprofundamento e contextualização do que levou a este terrível conjunto de tragédias que vivemos atualmente, sendo os negros ainda os mais vulneráveis. E sobre a mulher, que somos um país violentamente machista e que o patriarcado é componente estruturante em nossa sociedade sem qualquer perspectiva de mudança à frente.

O que sua obra diz sobre as mulheres de sua família e sobretudo sobre a Aline? O que você descobriu sobre si mesma ao longo de todos esses anos de trabalho com o tema?

AM: O que gostaria que a minha obra reverberasse de alguma forma é que todos estão implicados, que todos deveriam fazer parte da luta antirracista, não apenas os negros. O que descobri sobre mim é que para trabalhar questões coletivas eu precisei fazer um mergulho muito pessoal e íntimo dentro de mim mesma. Ainda que sentisse medo, deveria continuar. Ainda que não soubesse nem como começar, eu não poderia me dar ao luxo de desistir. Apesar de a arte ter um alcance restrito, ainda é uma forma de resistir e dizer que não nos esquecemos.

Como foi esse processo de lidar com a escravidão e com esse tipo de violência como Aline, como artista visual e como mulher?

AM: Existem muitas formas de enfrentamento destas questões, a que eu encontrei foi através do cinema, das artes visuais, da literatura. Então, pessoalmente falar desses assuntos é uma maneira de honrar a memória dos que vieram antes de mim. Eles deram a vida para que eu pudesse estar hoje com condições psíquicas e financeiras para poder falar sobre esse legado. Espero que não seja isso visto como uma “moda” ou “pauta identitária”, pois é algo que diz respeito a nossa própria vida, como lidamos com o estar no mundo e com o que nos conecta em níveis muito profundos.///

Veja abaixo imagens do processo de trabalho e da pesquisa:

 

 

Aline Motta nasceu em 1974, em Niterói. Vive e trabalha em São Paulo. É bacharel em comunicação social pela UFRJ e pós-graduada em Cinema pela The New School University (NY). Seus trabalhos combinam diferentes técnicas, como fotografia, vídeo e instalação.